05-01-2009Falta de preparo leva pais adotivos a devolverem crianças aos abrigos
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"No dia em que a minha filha adotiva bateu na minha filha biológica, percebi que não conseguiria levar a adoção até o fim e a devolvi ao abrigo", conta a paulista Ana Regina, uma mulher casada, de 33 anos, que tem uma filha de 9 anos e, por três meses, teve uma outra adotiva, de 7 anos. Na semana seguinte a do ocorrido, a garota fez as malas e voltou para a fila de espera e para a lista invisível das crianças adotadas e, após meses ou anos, devolvidas.
O tema é delicado, polêmico e, por mais que não haja estatísticas oficiais, acontece com freqüência maior do que se imagina, segundo especialistas que acompanham adoções. Apenas este ano, no Rio, um levantamento feito pela Justiça encontrou 14 casos parecidos - alguns ainda no período de experiência, outros após alguns anos terem se passado e o processo de adoção estar consolidado, sendo irrevogável teoricamente.
O estudo foi motivado pelo caso de um menino de 5 anos, que morava num abrigo no Flamengo. Ele viveu por um ano e meio sob a guarda de um casal que, de repente, desistiu de adotá-lo, levando-o de volta ao abrigo. A Defensoria Pública do Rio começou então um processo inédito, o de tentar responsabilizar judicialmente casais ou pessoas que devolvam crianças após longo período de adoção. O caso ainda está tramitando.
"Esses casos acontecem, mas não ficam registrados. Não sabemos exatamente quantos são. Quase sempre são resultado de processos mal conduzidos, de famílias e de pessoas que não estavam preparadas para a adoção", explica Savio Renato, do grupo de apoio à adoção Quintal de Ana, de Niterói (RJ), e presidente da associação nacional dos grupos de adoção. "A criança testa. Assim como nós também testamos. Se levamos muitos foras de namorados, após o terceiro, o quarto, só mostramos tudo de pior que temos, nossos grandes defeitos, para ver se podemos mesmo confiar. A criança faz a mesma coisa. É como se dissesse: ?Preciso que você me aceite com o que tenho de ruim antes, para que então eu possa entregar o que tenho de bom?", diz ele.
No caso de Ana Regina, que decidiu adotar por não poder mais ter filhos, faltou preparo e paciência para os testes, segundo ela mesma. "Eu tinha uma idéia ingênua de que a criança seria grata a mim, de que ela seria doce, meiga, que ficaria feliz por ter finalmente uma casa", diz ela, que conta ter se encantado com a garota quando a conheceu no abrigo. "Mas logo nos primeiros dias, ela e minha filha começaram a brigar. Uma pegava a roupa da outra, misturavam os brinquedos, era uma confusão em casa. Até que comecei a pensar que ela podia ter herdado um temperamento ruim dos pais biológicos. Quando tive esse pensamento, entendi que tinha sido um erro", diz.
Ela diz se envergonhar do processo, mas não acredita que conseguiria hoje continuar com a menina em casa, menos ainda tratá-la realmente como uma filha - sem a separação entre biológico e adotado. "Faltou espaço para ela fazer esses questionamentos antes, para adotar tendo certeza de que é um processo muito bonito, mas não por isso menos complexo ou difícil. Por isso a importância dos grupos de adoção", afirma Renato.
Segundo pesquisa da psicóloga Maria Luiza de Assis Moura Ghirardi, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), a preocupação com a família biológica da criança é um sinal de falta de preparo dos candidatos a pais. Em sua pesquisa, que envolveu entrevistas com diversos casais que devolveram ou pensam em devolver crianças adotadas, ela identificou alguns perfis que podem ajudar profissionais envolvidos no processo. A idéia é que eles identifiquem esses fatores de risco para a adoção e consigam trabalhá-los com a família.
A pesquisa mostrou que, além do medo das características e da presença da família biológica, outro fator de risco é a adoção por altruísmo, em que a decisão de adotar é para mostrar que a pessoa é boa e tem condições financeiras de ajudar uma criança sem família. É um pouco o caso de Maria e Antonio, de 45 e 47 anos. Sem filhos e com uma vida financeira estável no interior de São Paulo, eles acharam que a adoção traria novos sentimentos à rotina deles - e de quebra estariam fazendo uma boa ação. "Não conseguimos", resume ela. As crianças, dois irmãos de 5 e 7 anos, eram quietos, sentiam falta da mãe (que os abandonou) e não conseguiam ser carinhosos com o casal. "Após algumas semanas tivemos a dimensão dos problemas que carregavam. Achamos que seria demais para nós."
A Justiça do Direito Online
Fonte: Estado de São Paulo
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sábado, março 28, 2009
Correio Forense - Falta de preparo leva pais adotivos a devolverem crianças aos abrigos - Direito de Família
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