segunda-feira, julho 02, 2012

Consultor Jurídico - Embargos Culturais: Globalização parece perder terreno na academia - Notícias de Direito

Consultor Jurídico
Texto publicado domingo, dia 1º de julho de 2012
Globalização parece perder terreno no contexto acadêmico
Ver autoresPor Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy

Já se proclamou que a globalização surpreende, encanta, assusta, realizando várias formas de alienação, percebidas como naturais no processo civilizatório. Já se observou que a globalização surpreende-nos com a velocidade com a qual rearticula nossas vidas, encanta-nos com as promessas que faz, assusta-nos ao evidenciar nossa falibilidade. Seriam essas premissas válidas? E o que disseram os pensadores que se interessaram pelo problema (ou falso problema) da globalização?

A partir de estudo seminal de Antonio Negri e de Michael Hardt, Império, pode-se dividir os teóricos que se ocuparam com o tema em quatro grupos: 1) apocalípticos e conservadores, 2) apocalípticos e revolucionários, 3) integrados e otimistas e, 4) integrados e realistas. E a taxonomia poderia ser válida para os pensadores brasileiros também.

A classificação se baseia em ideia que tomei de Umberto Eco, que fracionou as atitudes perante o desenvolvimento da cibernética em apocalípticas e integradas. Nesse sentido, apocalípticos e conservadores seriam aqueles que acham que a globalização representa perigo para as conquistas do liberalismo, que cultuam a partir dos textos da maior referência do movimento, Friedrich A. Hayek, bem como a partir do defensor da aproximação entre capitalismo e liberdade, Milton Friedman.

Indico entre eles Samuel Huntington, que sugeriu que a nova ordem mundial decorre de um choque de civilizações, opondo ocidentalismo americanizante e orientalismo muçulmano. Aponto também John Gray, para quem a globalização sugere um falso pôr do sol, gerando instabilidades e apreensões.

Neste grupo ainda Joseph Stiglitz, que trabalhou como conselheiro econômico de Bill Clinton, que atuou no Banco Mundial, e que recebeu o Prêmio Nobel de Economia de 2001. Em seu livro A Globalização e seus Descontentes denunciou a fragilidade que a globalização impõe ao sistema mundial. O título é paródia de famoso texto de Sigmund Freud, A Civilização e seus Descontentes, no qual o grande nome da psicanálise registra nossas patologias como resultado da civilização que nos aprisiona, imagem que nos remete a Rousseau, na abertura do Contrato Social.

Apocalípticos e revolucionários, por outro lado, são aqueles que combatem a globalização, que reputam como movimento que destrói as possibilidades de construção da democracia. Antonio Negri e Michael Hardt são os seus porta-vozes mais eloquentes. Império é um dos livros mais impressionantes do fim do século XX, identificador de neomarxismo revigorante e crítico para com seus próprios fracassos.

Para os autores de Império, não há globalização sem regulamentação (e nesse sentido o constitucionalismo protagonizaria ação pragmática); fronteiras e nexos hierárquicos se alteram, bem como a realidade política, que é realidade de luta pelo capital, promove antinacionalismo que se aproveita da crise da soberania.

Em outro livro, Multidão, Negri e Hardt se referem aos vários usos que se faz do conceito de democracia, ensaiando-se a dissolução de ideias pré-fabricadas de povo ou de cidadania, em função da apreensão de uma compreensão de multidão, que leva em frente referenciais de biopolítica, em perene luta contra determinações que nos limitam, e que Negri e Hardt nominam de biopoder, temas também afetos ao ideário de Michel Foucault, embora sob prismas um pouco diferentes.

Ainda entre os apocalípticos e revolucionários aponto Michel Chossudovsky, professor canadense, que denuncia o que chama de globalização da pobreza, título de um de seus livros. Para Chossudovsky, textos constitucionais contemporâneos também se prestam para fixação de um ideário universal comum e empobrecedor.

Também entre os críticos da globalização aponto Paul Hirst e Grahame Thompson, autores de livro que propicia o debate sobre o papel da globalização na história econômica mundial e que evidencia que o Estado de Bem-Estar Social não sobreviverá à globalização.

Roberto Mangabeira Unger, brasileiro que leciona em Harvard, também é afinado com posições apocalípticas e revolucionárias, em relação à globalização. Para Mangabeira Unger, globalização é metáfora para americanização.

Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português que já investigou pluralismo jurídico no Brasil, trata de uma globalização contra-hegemônica, denunciando assimetrias do poder transnacional entre o centro e a periferia do sistema mundial que, no entanto, se aproximam teoricamente por modelos constitucionais que parecem falar as mesmas coisas.

Danilo Zolo, outro crítico, é pesquisador italiano que se preocupa com o papel que a China tenderia a protagonizar, como sucessora, em linha direta, de concepção que remontaria à paz de Westphalia, à Aliança Sagrada, à Liga das Nações, à Organização das Nações Unidas e ao imperialismo norte-americano.

François Chesnais, economista francês, também criticou veementemente o movimento de globalização, que denomina de mundialização do capital, e que determinaria o desmantelamento do Estado previdenciário, entre outros reflexos.

Entre os integrados e otimistas destaca-se Francis Fukuyama, cientista político nipo-americano, que festejou a vitória do liberalismo como indicativo do fim da história, marcando irreversível triunfo do capitalismo e de seus métodos. Também, Thomas Friedmann, ganhador do Prêmio Pulitzer, entre outros, que insiste que a proliferação do uso da internet seria um dos indícios de mundo melhor, decorrente da globalização. Será?

Integrados e realistas seriam os que aceitam a globalização, porém impondo limites ao seu alcance, na busca de alternativas que se acomodem ao inevitável. David Held nos dá conta de pacto global que ensejaria constitucionalismo universal, engendrando-se uma normatividade cosmopolita.

Ulrich Beck aponta para alguns equívocos da globalização, a propósito de uma sociedade de risco, que é presente e real. Manuel Castells, intelectual catalão que leciona nos Estados Unidos, produziu obra monumental de pesquisa sobre o mundo contemporâneo, a partir do que denomina de sociedade em rede, com enfoque em movimento antiglobalização que defenderia que não há globalização sem representação.

Richard Falk opõe reservas à globalização, preocupado com seus aspectos predatórios, na busca de uma cidadania perdida, e que pode ser reencontrada em provável cidadania de feição global. Anthony Giddens, ligado a Tony Blair, propõe uma terceira via, como alternativa para rigidez conceitual que historicamente marcou direita e esquerda. Norberto Bobbio, intelectual italiano muito conhecido entre os juristas brasileiros, negou esta terceira via. Jürgen Habermas, pensador alemão muito influente, buscou uma alternativa de compreensão comunicativa indicativa de constelação pós-nacional, decorrente de uma política deliberativa.

No Brasil, a relação entre globalização e Direito Constitucional, por exemplo, foi problematizada por Paulo Bonavides, na defesa das quatro colunas principiais e axiológicas inseridas no texto constitucional brasileiro de 1988. O geógrafo Milton Santos propôs uma globalização utópica, que apontasse para um mundo melhor.

Octávio Ianni chamava a atenção problemas de desterrirorialização, para a relação entre Nação e globalização, concebendo uma sociologia da globalização, preocupante, e marcante de visão apocalíptica, admitindo-se taxonomia aqui anunciada.

Entre os integrados no Brasil, o senador e diplomata Roberto Campos, crítico do texto constitucional de 1988, ao qual imputava diarreia normativa, propondo ideário neoliberal, a partir de concepção de democratização do capital, denunciando o Estado, que reputava como um ogro filantrópico. Na mesma linha, embora de modo mais discreto, Rubens Ricupero, que fora colega de Roberto Campos no Itamaraty, para quem, em relação à globalização, poderia se salvar o papel do Estado, como estrategista do desenvolvimento.

Penso, no entanto, que as preocupações com a globalização parecem perder terreno, pelo menos no contexto acadêmico. Globalização é uma daquelas expressões que pretendem explicar tudo e, talvez vítima dessa ambição, não nos explica absolutamente nada, apenas apontando para o que compreendemos como absurdamente óbvio.

Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é consultor-geral da União, doutor e mestre em Filosofia do Direito e do Estado pela PUC-SP.

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