O presidente, o sofá e a conta do assédio
24.11.2006
A maior contratante de mão-de-obra feminina é uma cooperativa local. Seu presidente é solteiro, bom cargo, carro do ano, mas pouco carisma. Sentia a dificuldade em se chegar às moçoilas da cidade.
Sexo fácil, só pago, indo a Estrela e Lajeado, onde é possível alcançar garotas de programa - algumas chegam a anunciar nos classificados dominicais.
Mas o presidente queria "coias diferentes" e, por isso, passou a assediar funcionárias da cooperativa. A técnica era a mesma e repetitiva: "piadinhas e insinuações, dizendo, também, que não entendia a recusa, pois a situação de quem concordasse iria melhorar". Quando era possível, aproveitava para "passar a mão nas intimidades das vítimas".
E sempre embutia um convite:
- Passa no meu gabinete, para dar uma deitada. De preferência, vai sem calcinha...
Para criar um clima melhor, mandava flores, entregues diretamente nas casas. Várias das assediadas noticiaram os fatos à autoridade policial, o que resultou em termo circunstanciado. Em Juízo, o presidente livrou-se do processo penal mediante acordo com Ministério Público. Pagou cestas básicas, porque os delitos cometidos eram de... menor potencial ofensivo.
Na mesma data da lavratura da ocorrência, duas das funcionárias ocuparam a tribuna livre na Câmara de Vereadores do Município, para denunciar publicamente o assédio sexual que elas e outras colegas vinham sofrendo. Dos edís, as duas - já demitidas da cooperativa - tiveram o apoio para que fossem buscar reparações cíveis. Assim foi feito.
Em Juízo, o depoimento de uma delas tem uma singularidade, ao relatar o convite, via celular, para que ela fosse ao gabinete do presidente, conforme palavras textuais dele:
"Vai rapidinho, tira a roupa e te deita no meu sofá. Tô chegando, para darmos uma rapidinha... Se concordares com coisa mais lenta, mais amasso, no motel, vou melhorar o teu salário. Como sei que queres ser mãe, até um filho eu te proporciono".
Ante o espanto da juíza que colhia o depoimento, a vítima prosseguiu:
- Olha, doutora! Eu quero muito ter um filho, mas ele tem que ser feito com o meu marido!
Os depoimentos das testemunhas foram nessa linha. O presidente, depondo, chegou até a tentar explicar o envio das flores:
- "Foi a cooperativa que mandou os cartões e os buquês, em procedimento habitual e normal, adotado em relação a todos os sócios".
Há poucos dias, sairam as sentenças das duas ações ajuizadas pelas corajosas mulheres. Cada uma delas será indenizada com dez salários, valor vigente à data do pagamento. Cabem recursos ao TJRS. Mas o advogado do presidente já despachou, ao cliente assediador, um resumo contábil. "Com juros, custas e honorários, a conta vai a quase 12 mil. Com essa grana, podes ir à Carmen, em Porto Alegre, plantel de primeira, dar belas bimbadas, várias vezes por ano, sem risco de ação judicial. Medita!".
O presidente está pensando.
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