sexta-feira, novembro 24, 2006

Romance forense

Fonte:


O presidente, o sofá e a conta do assédio



24.11.2006

A cidade é pequena, fica no Vale do Taquari - são pouco mais de quatro mil pessoas ali residentes. Uma singularidade: pelo último levantamento feito pelo IBGE, há 52% de homens e 48% de mulheres. Logo, para alguns varões, a "batalha" pelo namoro, sexo livre e afins não é algo fácil, corriqueiro. Presumivelmente, sempre haverá concorrentes. Ademais, ali os hábitos são germânicos e ainda há algum culto à virgindade.

A maior contratante de mão-de-obra feminina é uma cooperativa local. Seu presidente é solteiro, bom cargo, carro do ano, mas pouco carisma. Sentia a dificuldade em se chegar às moçoilas da cidade.

Sexo fácil, só pago, indo a Estrela e Lajeado, onde é possível alcançar garotas de programa - algumas chegam a anunciar nos classificados dominicais.

Mas o presidente queria "coias diferentes" e, por isso, passou a assediar funcionárias da cooperativa. A técnica era a mesma e repetitiva: "piadinhas e insinuações, dizendo, também, que não entendia a recusa, pois a situação de quem concordasse iria melhorar". Quando era possível, aproveitava para "passar a mão nas intimidades das vítimas".

E sempre embutia um convite:

- Passa no meu gabinete, para dar uma deitada. De preferência, vai sem calcinha...

Para criar um clima melhor, mandava flores, entregues diretamente nas casas. Várias das assediadas noticiaram os fatos à autoridade policial, o que resultou em termo circunstanciado. Em Juízo, o presidente livrou-se do processo penal mediante acordo com Ministério Público. Pagou cestas básicas, porque os delitos cometidos eram de... menor potencial ofensivo.

Na mesma data da lavratura da ocorrência, duas das funcionárias ocuparam a tribuna livre na Câmara de Vereadores do Município, para denunciar publicamente o assédio sexual que elas e outras colegas vinham sofrendo. Dos edís, as duas - já demitidas da cooperativa - tiveram o apoio para que fossem buscar reparações cíveis. Assim foi feito.

Em Juízo, o depoimento de uma delas tem uma singularidade, ao relatar o convite, via celular, para que ela fosse ao gabinete do presidente, conforme palavras textuais dele:

"Vai rapidinho, tira a roupa e te deita no meu sofá. Tô chegando, para darmos uma rapidinha... Se concordares com coisa mais lenta, mais amasso, no motel, vou melhorar o teu salário. Como sei que queres ser mãe, até um filho eu te proporciono".

Ante o espanto da juíza que colhia o depoimento, a vítima prosseguiu:

- Olha, doutora! Eu quero muito ter um filho, mas ele tem que ser feito com o meu marido!

Os depoimentos das testemunhas foram nessa linha. O presidente, depondo, chegou até a tentar explicar o envio das flores:

- "Foi a cooperativa que mandou os cartões e os buquês, em procedimento habitual e normal, adotado em relação a todos os sócios".

Há poucos dias, sairam as sentenças das duas ações ajuizadas pelas corajosas mulheres. Cada uma delas será indenizada com dez salários, valor vigente à data do pagamento. Cabem recursos ao TJRS. Mas o advogado do presidente já despachou, ao cliente assediador, um resumo contábil. "Com juros, custas e honorários, a conta vai a quase 12 mil. Com essa grana, podes ir à Carmen, em Porto Alegre, plantel de primeira, dar belas bimbadas, várias vezes por ano, sem risco de ação judicial. Medita!".

O presidente está pensando.



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