Água mineral com gosto de cachacinha
Na cidade interiorana, o intimorato promotor tinha o hábito, todos os meio-dias, de - no trajeto do foro para sua casa - passar no clube local e tomar um martelinho - sempre liso e transparente.
Era - talvez - seu único defeito - se é que de defeito se tratava.
Nos dias de júri era diferente. O agente ministerial gostava de, várias vezes, no entremeio de suas brilhantes manifestações, discretamente sorver alguns goles do incolor produto destilado. Era a maneira como combatia a tensão e o estresse dos julgamentos. O recipiente ficava num vão existente debaixo do tampo da mesa.
Mas esse aparentemente discreto proceder não escapou da observação de advogados, do juiz, de jurados e de espectadores habituais. Para evitar constrangimentos futuros, o promotor fez um trato com o oficial de justiça e passou a levar a aguardente acondicionada em garrafas (translúcidas) de meio litro, como se fosse água mineral. O disfarce se fazia mediante a colocação de uma tampinha igual às que são usadas para fechar os recipientes de água com gás.
Assim, toda a vez que o promotor precisava molhar a garganta, fazia um sinal ao meirinho que, providencialmente, postava-se próximo a um microfone, na mesa principal. Ali, simultaneamente ao usar o abridor de garrafas, o oficial – de costas para o público - disfarçava um rápido assobio.
- Pohhhhh!
Era uma quase perfeita imitação de que - com o ruído característico do líquido gasoso - se estava abrindo uma garrafa de água mineral.
Um dos advogados mais atilados da praça bolou, então, a estratégia gozadora para o júri seguinte. Convocou sua claque para sentar-se nas primeiras filas e combinou, com os asseclas, como deveriam agir em momento pontual do julgamento.
Foi assim que 15 ou 20 circunstantes, a um só tempo, fizeram gestos e ruídos ensaiados - com os dedos e com as bochechas - justo no momento em que o oficial de justiça abria a primeira "garrafa de água mineral" naquele julgamento.
Ocorreu, então, um coro ensaiado e gesticulado:
- Poh, poh, poh!...
Depois, uma risada geral.
O juiz tocou a campainha, advertiu que em caso de repetição do fato mandaria evacuar a sala. E tirando um papel do bolso, fez rápida leitura de uma prece de São Francisco de Assis: "onde há ódio, que eu leve o amor; onde há ofensa, que eu leve o perdão; onde há discórdia, que eu leve a união; onde há dúvida, que eu leve a fé; onde há erro, que eu leve a verdade; onde há desespero, que eu leve a esperança; onde há tristeza, que eu leve a alegria; onde há trevas, que eu leve a luz. Afinal, é perdoando que se é perdoado".
Naquele julgamento, o promotor não tomou mais "água mineral". E - coincidência ou não - o réu foi absolvido.
Nenhum comentário:
Postar um comentário