quarta-feira, maio 17, 2006

Editorial: Afronta ao Estado




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Belo Horizonte, 16/05/2006 – O editorial “Afronta ao Estado” foi publicado hoje no jornal O Estado de Minas:

“A verdade não pode ser camuflada. O poder público está perdendo a batalha para a bandidagem, que, desde o fim da semana passada, declarou guerra ao sistema de segurança pública de São Paulo, numa ação comandada pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). É lamentável constatar que está em curso uma operação orquestrada contra agentes da lei, quartéis e delegacias de polícia, da qual já resultou em 81 mortos e dezenas de feridos, na capital e no interior do estado. Nada está fora do poder de fogo dos marginais. O processo de sucateamento dos órgãos de segurança estatais vem se evidenciando desde o fim da década de 90, quando o governo Fernando Henrique Cardoso lançou o Plano Nacional de Segurança Pública. Entretanto, até hoje, já no governo do PT, pouco se fez para modernizar e equipar o sistema de defesa da população, particularmente nas grandes capitais e regiões metropolitanas. Calcula-se que, desde 2002, o PCC vem arrecadando R$ 1 milhão por mês, além de receber verbas da máfia do narcotráfico.

Criminalistas e especialistas em segurança dizem que os marginais brasileiros atuam como os mafiosos dos anos 30 nos Estados Unidos. Existe uma conexão de comando, tanto que o chefe máximo do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho (Marcola), mesmo transferido de Avaré para a penitenciária de segurança máxima de Presidente Wenceslau (ambas em SP), comandou a operação registrada anteontem nos presídios do estado e nas ruas de São Paulo, com repercussão internacional. A situação é alarmante, mas o ex-secretário Nacional de Segurança Pública Luiz Eduardo Soares disse que “práticas que violam direitos humanos no interior dos presídios não resolvem o problema”. Segundo coordenador da Pastoral Carcerária da Igreja Católica paulista, padre Valdir João, 10 organizações ocupam o espaço institucional deixado vago pelo Estado.

O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, disse que o governo federal descarta intervir para controlar os ataques, que são atribuídos ao PCC, porém, após reunião com o presidente Lula, viajou ontem à capital paulista para conversar com o governador Cláudio Lembo (PFL). Bastos garante que pode pôr 4 mil dos 7 mil homens da Força Nacional de Segurança à disposição de São Paulo, Paraná e Mato Grosso do Sul, principais focos das rebeliões de presos, mas as tropas só podem se deslocar se houver pedido formal ao presidente da República. No caso paulista, Lembo havia recusado a oferta no domingo. O presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dom Geraldo Majella Agnelo, pediu o restabelecimento da ordem, mas quer ação firme e sem violência. O presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Roberto Busato, disse que “o mínimo que se exige é uma resposta do poder público à altura do agravo”. Consta-se que o PCC tem mais de 100 mil simpatizantes dentro e fora dos presídios do país e controla praticamente 90% do sistema carcerário nacional. Sem dúvida, uma afronta intolerável ao Estado, que precisa ser reprimida a todo custo”.



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