A Reverendíssima Excelência
Charge de Gerson Kauer
Por Ingrid Birnfeld,
advogada
Conta-se que, em cidadezinha interiorana, o júri de um homicídio que havia causado comoção na comunidade coincidiu com a visita do arcebispo da capital. Assim, a cidade, num mesmo dia, voltou toda a sua atenção para a autoridade religiosa e o julgamento, no qual atuaria renomado advogado da defesa, igualmente vindo da metrópole.
Os poderes situavam-se muito próximos, circundavam a praça central. Em frente ao foro, centenas de pessoas formavam fila, na expectativa de conseguirem um lugar na sala onde ocorreria o julgamento, e o juiz cuidava dos últimos preparativos para a sessão. Ao redor da igreja, fiéis disputavam os melhores lugares para assistir à festa da padroeira.
Sentado em uma cadeira colocada em um palanque erguido à entrada do templo, o arcebispo concedia a benção aos fiéis. Por sua vez, acomodando-se em uma cadeira antiga reservada a importantes solenidades, o magistrado, diante de uma platéia lotada, declarava aberto o julgamento.
Foi quando ouvia-se a festa religiosa acontecendo na praça e as razões da acusação eram expostas com veemência, que um citadino, roubando a atenção de todos e emudecendo o promotor, ingressou pelo corredor central da sala onde ocorria o júri. Vestindo camisa impecável, cabelos cuidadosamente penteados e pés descalços, o homem, passos lentos e cabeça baixa, se dirigiu ao juiz, tomou uma das suas mãos e a beijou com devoção.
Tamanha era a sua fé, que sequer a toga negra o alertou de que errara de solenidade.
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