“Por primeiro”
Charge de Gerson Kauer
Por Ingrid Birnfeld,
advogada
Reclamatória trabalhista na qual a reclamante postulava a nulidade da sua despedida por justa causa. Trabalhara como atendente de creche e teria agredido fisicamente uma criança que estava sob os seus cuidados.
Na audiência de instrução, ouvidas uma testemunha da reclamada e duas da reclamante, houve sensível divergência entre os depoimentos. A testemunha da creche era pessoa bastante humilde e dizia ter presenciado as agressões, enquanto as da reclamante, antigas colegas de trabalho e mais esclarecidas, atestavam a sua qualidade profissional e diziam que aquela jamais poderia ter presenciado os fatos alegados, na medida em que trabalhava como cozinheira, distante dos locais onde ocorriam as atividades com as crianças.
Diante da divergência entre os depoimentos, o juiz resolveu interrogar novamente a testemunha da reclamada.
- A senhora tem certeza do que disse?
- Tenho.
- A reclamante agrediu, mesmo, uma criança? – o magistrado insistiu.
- Agrediu.
- Mas as outras moças que trabalhavam na creche, e que estão aqui presentes, me disseram que a senhora trabalhava na cozinha, longe do local onde teriam ocorrido as agressões. É isso?
- Sim.
- Mas, então, como a senhora presenciou os fatos?
- Eu trabalhava lá, senhor juiz.
Nesse momento, o advogado da reclamante, interrompendo o juiz, pediu a palavra.
- Se Vossa Excelência me dá licença, eu gostaria de fazer um questionamento, para tentar esclarecer o testemunho.
- Pois não, o doutor está com a palavra.
- Minha senhora, nos diga uma coisa. Alguém lhe contou o que teria acontecido, ou a senhora efetivamente assistiu tudo, com os seus próprios olhos?
- Eu fiquei sabendo.
- Por quem?
- “Por primeiro.”
- Como assim? A senhora pode nos explicar? – o advogado questionou.
- Por primeiro, antes de todos. Chamaram eu e mais duas colegas e nos levaram lá no escritório do doutor, esse doutor aí – a testemunha indicou o advogado da reclamada.
- E daí? – perguntou o magistrado, antes mesmo que o advogado da empresa ousasse se manifestar.
- E daí eu fui chamada “por primeiro”, ele me falou o que eu tinha de dizer pro juiz no dia da audiência. Eu não sei se a audiência é hoje, né, mas eu soube por primeiro, sim, isso é verdade, né, doutor? – denunciou, olhar aflito para o advogado que a havia instruído.
Este exibia uma face em tom que variava do carmim ao roxo, ora passando pelo branco-todo-vontade-de-sumir.
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