quarta-feira, junho 11, 2008

A arma da discórdia - Espaço Vital

 

A arma da discórdia

 

Charge de Gerson Kauer

Por Ingrid Birnfeld,
advogada

O ambiente é o Foro trabalhista de uma cidade gaúcha. A jovem juíza - recém chegada - é informada por um servidor que o reclamado da audiência imediata é um conhecido fazendeiro que costuma apresentar-se armado nos bailes e em conversas de bar. E que - a se aferir pela conversa em voz alta, instantes antes no saguão, ele estaria - como de praxe - munido de um "38".

Nos autos da reclamatória, o empregado - um tratador de cavalos - pedia direitos relativos a um vínculo empregatício de mais de 20 anos.
Olhos arregalados ante o alerta feito pelo servidor, a  magistrada entendeu ser conveniente apregoar, inicialmente, apenas o fazendeiro reclamado. Afinal, ela própria queria constatar a veracidade da informação e averiguar eventual risco decorrente de animosidade entre as partes.


Chamado, o fazendeiro adentrou à sala de audiências. Cumprimentou a todos com seu jeito “espaçoso” e sua voz alta, como se estivesse à vontade naquele ambiente. Esperou que a juíza dissesse o "sente-se por favor" - após o que  colocou sobre a mesa seu par de luvas de lã e seu chapéu.


- Disseram-me que o senhor está portando uma arma. Como o senhor pode ver, não temos segurança judiciária e eu sou mulher. Assim, se a sua intenção é brigar com o reclamante, não vou poder realizar a audiência, porque não conseguirei contê-los...

A magistrada suspirou profundamente, aguardando manifestação do reclamado. Este - maroto como sempre – aguardo nova manifestação da presidente da solenidade.
É verdade que o senhor está armado? – questionou a juíza.


- Sim, é verdade! – respondeu o reclamado, acrescentando que "sempre sou homem que assume seus atos"

- E a sua arma está carregada, tem munição? – prosseguiu a julgadora, já adentrando em inquietantes minúcias.

- Sim, doutora, mas não se preocupe. É só aquele vivente entrar nessa sala que eu descarrego ela!...

- retorquiu o fazendeiro, em tom ameaçador, mas sutilmente exclamativo e reticente, sem dar a entender qual seria o destino da balas: a cartucheira, ou ...


A audiência foi adiada. Fazendo constar nos autos o incidente, a juíza marcou nova data, solicitando proteção policial para esse dia.


Repetida a solenidade duas semanas depois, com a presença de exuberante força policial etc., o fazendeiro apresentou-se desarmado e elegante (nos trajes e na fluência verbal).


A magistrada teve a habilidade de conciliar as partes, que estabeleceram valor indenizatório, pago em quatro vezes.


Na cidade, conta-se que a fama do valente está em baixa. Mas que ele permaneceu circulando armado nos locais onde, convenientemente, o ex-empregado passa longe.

 

Espaço Vital

 

 

 

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