segunda-feira, março 24, 2008

Corra bezzi, corra.: Notícias de uma guerra particular

 

Quarta-feira, Abril 04, 2007

Notícias de uma guerra particular

NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR DENTRO DA ESFERA JORNALÍSTICA

POR LUCAS NEGRÃO.


Notícias de uma Guerra Particular

– vencedor dos prêmios Quanta e de Melhor Documentário Brasileiro no festival É Tudo Verdade– narra à realidade nua e crua da violência no Rio de Janeiro. O dia-a-dia dos moradores das favelas que são dominadas pelo crescente tráfico de drogas.


O documentário se entrelaça a partir dos relatos de moradores do morro da Dona Marta – os quais vivem sob o fogo cruzado –, e dos policias e traficantes – que vivem praticamente uma guerra civil. Uma relação de simbiose se estabelece entre moradores e traficantes. Crianças são atraídas ao tráfico na busca pela ambição e pelo poder – além de roupas e tênis de marca, carros e dinheiro. E os policiais são pinos de um jogo que parece não ter fim, não ter vencedores.


Há um parâmetro interessante que seria a visão que os moradores do morro têm dos traficantes e da polícia. Para eles os traficantes representam o mesmo que a polícia representaria para a elite: ordem, respeito pela sua comunidade e acima de tudo segurança. Já a imagem que têm da polícia, é a mesma que a elite tem dos traficantes: medo, raiva, sentimento de injustiça num papel de inimigo.


Existem passagens no documentário que realmente chocam, como por exemplo, o garoto saber os nomes, local de fabricação, siglas e calibres de diversas armas. Ou o outro de apenas dez anos que se sentia bem por estar sempre perto da morte. Ainda temos o policial, que se orgulhava de matar e dizia dormir com a consciência tranqüila – com pensamento de missão cumprida.


João Moreira Salles e Kátia Lund procuraram ao máximo a imparcialidade, mostrando todas as faces da vida no morro e todos seus envolvidos – de maneira igual. Essa questão foi tão polêmica que Salles foi indiciado pela polícia civil carioca por possível favorecimento ao traficante Marcinho VP – o qual além de participar de seu documentário, recebia uma ajuda financeira para que escrevesse um livro relatando seu cotidiano com o tráfico.


O documentarista apresenta linhas de trabalho muito similares ao do jornalista. Em entrevista concedida à revista ISTOÉ, João Moreira Salles foi questionado na questão de ter ajudado um traficante e gerado muita polêmica. Se não de um ponto de vista legal, mas ético e moral não teria ultrapassado uma fronteira perigosa. Quanto a isso Salles respondeu: “Do ponto de vista jurídico, o que houve foi a contratação de um livro. Não há empecilho nisso, mesmo com um foragido da lei. Do ponto de vista moral e ético realmente me sinto à vontade. Acho que é legítimo tentar compreender as razões de quem optou pelo caminho errado. Enquanto a gente não entender as razões, Márcios VPs surgirão todos os dias no Rio. O documentarista quer compreender a realidade e às vezes precisa penetrar nela, ultrapassar os limites do conforto e do que seria mais prudente.”


Podemos dizer então, que o documentário é em grande parte fundamentado na esfera jornalística. Foram quatro anos de pesquisa. Coletando informações, dados, analisando o meio e seus indivíduos. O jornalista, além de informar, noticiar e estar sempre à procura da verdade precisa ter em mente o conceito de responsabilidade social. Pois a partir do momento que o jornalismo é a realidade, é dever do mesmo mostrar esse contraste negro da bela cidade do Cristo Redentor, do Pão de Açúcar e de Copacabana.


Em fato, Notícias de uma Guerra Particular foi determinante para lançamentos como o documentário Ônibus 174 e o livro Abusado de Caco Barcellos. Com esse documentário, Kátia Lund, conseguiria a co-direção no aclamado filme Cidade de Deus algum tempo depois.


Intitulamos-nos um país calmo, tranqüilo e pacífico. Mas esse retrato da violência nas favelas, morros e periferias do Brasil é algo que raramente vemos ou nos importamos. Uma guerra urbana que acontece bem debaixo de nossos narizes e fazemos como se não fosse aqui.

 

Corra bezzi, corra.: Notícias de uma guerra particular

 

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