quarta-feira, março 26, 2008

A prova - Espaço Vital

 

A prova

Charge de Gerson Kauer

Por Ingrid Birnfeld,
advogada

Ação de usucapião de terreno localizado em zona rural de uma cidade do interior do RS. Havia controvérsias quanto à mansidão da posse e extensão da área cujo domínio estava sendo postulado, e então o juiz marcou audiência de justificação, para oitiva das testemunhas do autor.


As duas primeiras foram bastante específicas em seus depoimentos, eram agricultores que moravam nas proximidades e conheciam bem a região.


- Sim, ele construiu uma casa e lá mora há muitos anos – disse uma. As terras fazem divisa com as propriedades dos Lima, dos Amaral e da família do Padre Inácio.


- Ele planta milho e tem criação de animais – afirmou a outra. Se algum rio passa por ali? Sim, o Rio Vermelho, bem pertinho – completou.


As duas primeiras testemunhas, enfim, prestaram depoimentos uniformes com relação à localização, extensão e limites da área.


Quando passou a colher o depoimento da terceira e última testemunha, o juiz, não percebendo que a mesma acabara de se qualificar como residente na capital e trajava vestes urbanos, saiu perguntando em detalhes:


- Qual a dimensão aproximada das terras? Onde iniciam e onde terminam? – questionou.    
- Não sei, Excelência.
- Quais vilas estão na região?
- Ignoro.
- E o rio, ou arroio, ou riacho? Qual o nome das águas que passam por lá?
– o magistrado insistiu.


A testemunha olhou para o autor e seu advogado, como que pedindo auxílio, mas em seguida o juiz lhe advertiu.


- O senhor não pode consultar aos presentes. Peço que olhe apenas para mim, e que me diga qual o nome do rio que banha as terras da região.
- Eu preciso lhe responder agora?
– questionou, constrangida.
- Sim, por óbvio, observe que a audiência já começou – o juiz respondeu com certa ironia.
- Então, o senhor queira me desculpar, pois não sei responder. Acabei de dizer que resido na capital. Vim aqui para falar que numa ocasião, anos atrás, estive na casa do Antonio à procura de um primo dele, que havia trabalhado para o meu marido. E não me avisaram que eu faria uma prova de geografia – retrucou, franca, evidenciando que o "distraído", ali, era o julgador. 

 

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