19 de Outubro de 2008 - 17h56 - Última modificação em 19 de Outubro de 2008 - 17h56
AGU garante que novas regras para regularização de quilombos são mais claras
Isabela Vieira
Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro - O consultor geral da Advocacia-Geral da União, Ronaldo Jorge Araújo, defende as novas regras para a regularização de terras ocupadas por quilombos, publicadas no último mês pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Segundo ele, os procedimentos se tornaram mais objetivos e seguros, do ponto de vista jurídico, o que evita fraudes e contestações, além de dar mais agilidade ao processo.
“É uma premissa equivocada achar que qualquer mudança que o governo faça na lei é para prejudicar, para suprimir direitos”, afirmou.
A AGU coordenou a revisão da instrução normativa do Incra que regulamenta o Decreto 4.887 de 2003, estabelecendo procedimentos para a titulação de quilombos. A mudança começou no ano de 2007 e envolveu mais de 20 setores do governo. O texto também foi apresentado à comunidade quilombola. Segundo Ronaldo Araújo, a consulta obedeceu a normas internacionais.
Algumas alterações, no entanto, não agradaram o movimento quilombola, que publicou carta de repúdio, no último dia 10. Além de afirmarem que o processo de consulta foi “conturbado e não democrático”, denunciam mais lentidão nas regularizações por conta da falta de estrutura do governo e da burocracia das regras.
O movimento estima a existência de três mil comunidades quilombolas no país, das quais menos da metade (1,2 mil) foi certificada pela Fundação Cultural Palmares desde 1988. A Palmares, no entanto, é agora a responsável por dar início ao processo fundiário, certificando os remanescentes.
“A falta de controle pelo Estado pode prejudicar aqueles que efetivamente têm o direito a terra. O rigor beneficia os legitimados. Você não pode suprimir do Estado o papel de certificação, de fiscalização, de checar para saber se as pessoas que vão ser beneficiados são aquelas mesmas remanescentes de quilombos”, explicou o consultor geral da AGU.
“Se de fato houver uma questão de estrutura, essa questão de terá que ser resolvida. O operacional não pode se sobrepor ao conceito, ao que está previsto na lei”, acrescentou.
Segundo ele, as modificações da instrução normativa foram motivadas por denúncias, não confirmadas, que apontavam fraudes no processo de identificação dos quilombos. Por isso, a necessidade de tornar alguns pontos mais objetivos.
O Decreto 4.887 também está sendo contestado no Supremo Tribunal Federal (STF) por meio de uma ação direta de inconstitucionalidade do Democratas.
Com as novas regras, o governo federal quer também esvaziar os argumentos da ação, que pode ser julgada a qualquer momento. “Não queremos transferir para o Judiciário a questão. Não é o Judiciário que vai contratar um ou dois peritos para resolver. São instituições de governo, que trabalham há anos com essas questões”, defendeu Araújo.
Outro ponto contestado pelo movimento é a criação de fóruns para resolução de conflitos jurídicos no âmbito da AGU e políticos, na Presidência da República. De acordo com a AGU, a idéia é resolver de uma vez, impasses entre setores do governo e que se arrastam há anos na Justiça, como acontece entre o quilombo de Marambaia e a Marinha. A disputa dura seis anos e a comunidade chegou a ser processada por reformar as casas.
“Com a nova instrução, o governo tem novos elementos e vai ter que promover a conciliação. Ouvirá todos os órgãos envolvidos, todos os interesses e buscará alternativas com base na legislação. Não há mágica”, afirmou ao antecipar que uma câmara foi constituída para resolver a questão de Marambaia. “A discussão não é uma coisa simples”.
A comunidade quilombola também acusa o governo de não tê-la ouvido durante a consolidação da nova instrução. “Não podemos considerar legal a consulta porque tivemos três dias para ouvir a proposta e colocar nossos questionamentos”, diz a carta de repúdio da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais (Conaq). Além disso, informam, os representantes do governo na consulta não tinham poder de decisão. Assim, o movimento encaminhou denúncia à Organização Internacional do Trabalho (OIT) contra o governo federal.
A Advocacia-Geral da União garante que as acusações do movimento não são verdadeiras e que a consulta à comunidade teve a chancela do Ministério Público Federal e que antes da apresentação, o texto da nova instrução ficou à disposição dos quilombolas por três meses.
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