quarta-feira, abril 02, 2008

Crime e castigo - Blog Oficial do Prof. Damásio de Jesus

 

Crime e castigo

1 de Abril de 2008   
Publicado por Damásio de Jesus  

 

É uma alegria compartilhar, com os pacientes leitores deste blog, o prazer enorme que me proporciona a (re)leitura de obras consagradas na literatura universal. É um tesouro inesgotável que vai se abrindo, uma leitura puxando outra, um assunto conduzindo a outro, um livro despertando a curiosidade por outro. É pena que a vida seja tão curta, e o tempo, tão escasso!

 

Revi, nas últimas semanas, “roubando” um pouco do tempo de convivência com os netos, um livro clássico que havia lido quando jovem, in temporibus idibus… É uma obra que se apresentava como leitura obrigatória para qualquer estudante de Direito, pela profundidade com que expõe a psicologia do criminoso: Crime e castigo, do russo Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821/1881). Imaginem a minha surpresa ao saber, ao mesmo tempo em que o lia e estudava Direito Civil no segundo ano do curso de Direito, da revelação que guardo para os ilustres leitores no final deste trabalho!

 

A literatura russa é rica e variada; tem interesse universal. Seu alcance transcende muito os vastos limites do antigo Império dos Czares. Os franceses do século XIX eram, normalmente, considerados chauvinistas, hipercríticos em relação a manifestações culturais ou artísticas provenientes de outros povos, mas ficavam extasiados diante das sutilezas um tanto bárbaras dos autores russos. Foi a França que se encarregou de divulgar universalmente os grandes valores da literatura russa, como Dostoiévski, Tolstoi, Pushkin, Gogol e tantos outros.

 

A vida de Dostoiévski é, de si, matéria mais do que suficiente para um romance. Foi extremamente atribulada. Ele pertencia à pequena nobreza, estudou em academia militar e, depois, envolveu-se, ainda na mocidade, em conspirações revolucionárias. Chegou a ser acusado num processo e condenado à morte. Já estava sobre o cadafalso quando recebeu um ukasse do Imperador, comutando a sentença em degredo para a Sibéria. Lá viveu longos anos, deixando-nos, em conseqüência disso, o clássico livro Recordações da Casa dos Mortos – que recomendo aos meus leitores: leiam, conjugadamente ou comparativamente, com O Arquipélago Gulag, de Solzenitsin. Ambos descrevem as prisões siberianas com 100 anos de diferença, sob regimes diversos: o czarista e o comunista. O primeiro já era bárbaro, no segundo, a barbárie se multiplica pela barbárie.

 

Dostoiévski foi jogador compulsivo e conheceu na própria pele o que é ser viciado. A magistral descrição que fez, em O jogador, do domínio tirânico do vício sobre uma vontade fraca é, em larga medida, um relato autobiográfico. No fim da vida, tornou-se religioso, até meio místico. Em todas as fases da existência, observou muito seus conterrâneos e soube como ninguém descrever a alma russa, com excepcional talento literário e grande senso psicológico. Foi muito imitado, em numerosos países, mas, no seu gênero, jamais superado.

 

Crime e castigo é um romance policial às avessas, ao contrário do estilo bem conhecido de Agatha Christie, que esconde cuidadosamente o criminoso e só o faz aparecer no fim do romance. Em Crime e castigo, o criminoso se revela logo nas primeiras páginas: é um jovem que precisa de dinheiro e mata uma usurária para roubá-la. Mata também uma outra pessoa que, por acaso, testemunhara o crime, e essa circunstância, entre nós, a qualificadora da conexão no homicídio, o abala profundamente. A partir daí, não se esconde mais. Pelo contrário, parece brincar com os investigadores, facilitando-lhes pistas e mais pistas, numa espécie de busca subconsciente de autopunição. O desfecho ocorre quando, já inteiramente afastado do foco das investigações policiais, vai se entregar voluntariamente à prisão, libertando-se, assim, do peso angustiante do seu remorso. Para nós, que estudamos a figura do arrependimento em matéria criminal, como a do art. 16 do nosso Código Penal, é curioso apreciar o estado psicológico do arrependido, motivo que leva alguns autores a exigir sinceridade na atitude do sujeito.

 

O interesse do livro é crescente e vai envolvendo o leitor, não tanto pelo enredo, que é relativamente pobre e sem muito suspense, mas pelas figuras humanas notáveis que pontilham todo o texto. É um ensaio psicológico de primeira grandeza, sobre a procura subconsciente da autopunição libertadora.

 

Por cima do enredo do romance, pairam questões filosóficas profundas: qual a verdadeira noção de bem e mal? Até que ponto esses conceitos não serão subjetivos? Existe, na realidade, um livre arbítrio, ou as pessoas não são senão realizações de um destino predeterminado?

 

Embora Dostoiévski já se possa situar na fase final do romantismo, na transição para o realismo, seu livro contribuiu para difundir o mito romântico da prostituta que vive no vício, mantendo-se superior ao ambiente e com espírito nobre. Ao lado do bon sauvage de Rousseau (divulgado no século XIX por numerosos autores românticos, entre os quais o brasileiro José de Alencar), o mito da prostituta de nobres sentimentos tornou-se recorrente na literatura e no teatro (quem não se lembra de Madame Butterfly, ou da Traviata?).

 

Crime e castigo, publicado em 1866, foi o primeiro grande sucesso público de Dostoiévski. Teve logo uma tradução para o francês e, daí, se espalhou pelo mundo inteiro, com imensa repercussão. Sua trama violenta e cheia de emoções provocava abalos nos sensíveis nervos dos nossos antepassados. Havia senhoras que, lendo, desmaiavam; homens que precisavam parar a leitura para se recompor… Falava-se na “barbárie congênita dos russos”, expressa naquele drama tão perturbador.

 

É difícil avaliar, hoje, o efeito causado por essa obra que recomendo a todos. Só lamento não saber russo para saboreá-la no original.

 

Concluo com uma informação curiosa, de interesse para os leitores deste blog, que são, quase todos, da área jurídica: no Brasil, um dos primeiros comentadores do romance (que aqui chegou em língua francesa) foi Clóvis Bevilácqua, o civilista, que publicou, em 1889, Época e Individualidade, livro no qual trata de Crime e castigo do ponto de vista jurídico, focando o tema da psicologia do crime.

 

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